LIDAR COM A DIFERENÇA | AMAR COM LUCIDEZ
Nem todas as relações falham por falta de amor. Muitas relações falham pela dificuldade em lidar com a diferença.
Existe uma ideia muito enraizada sobre o que significa amar: a de que a proximidade implica concordância, de que estar bem numa relação significa pensar de forma semelhante, sentir de forma semelhante e querer as mesmas coisas, ao mesmo tempo.Mas essa ideia, embora comum, é limitadora, pois amar não é concordar, é saber diferenciar.
A competência relacional que sustenta relações maduras
Existe uma competência relacional pouco falada fora de contextos mais especializados, mas absolutamente central para a construção de relações consistentes e emocionalmente estáveis: a diferenciação.De forma simples, a diferenciação é a capacidade de manter a própria identidade, mesmo na presença da proximidade emocional. É conseguir estar com o outro sem se diluir no outro, é aproximar-se sem se fundir e é amar sem precisar de concordar em tudo. É manter a sua identidade, convivendo e respeitando a identidade do outro.
Diferenciação é sustentar aquilo que se pensa, aquilo que se sente e aquilo que se valoriza, sem que a diferença seja automaticamente interpretada como ameaça à relação.

Porque é que a diferença se torna tão difícil
À primeira vista, isto pode parecer simples, mas, na prática, é exigente. Isto explica-se porque, quando a identidade não está suficientemente consolidada, qualquer discordância pode ser sentida como rejeição e, também, quando a capacidade de gerir emoções é limitada, qualquer tensão pode ser interpretada como abandono. Existe uma terceira razão que se explica quando o valor pessoal depende, em grande medida, da validação do outro e a divergência tende a ser vivida como desamor.Nestes contextos, a diferença deixa de ser apenas diferença e passa a ser percebida como risco. E é aqui que muitas relações começam, subtilmente, a perder estrutura.
As estratégias silenciosas que fragilizam o vínculo
Perante esta dificuldade em tolerar a diferença, surgem estratégias que, à superfície, parecem proteger a relação, mas que, a médio prazo, a fragilizam.Começa-se por se ceder para evitar conflito, ajusta-se o discurso para manter harmonia e silenciam-se necessidades para não gerar desconforto.
Noutras situações, acontece o oposto: pressiona-se o outro para obter concordância ou adota-se uma atitude de afastamento emocional, como forma de recuperar o controlo.
A isto chamamos de equilíbrio, mas, muitas vezes, trata-se apenas de uma forma mais silenciosa de fusão ou de afastamento. Em ambos os casos, a identidade deixa de estar de forma plena na relação.

Quando o problema não é falta de amor
A verdade é que muitas relações não terminam por falta de amor, mas terminam porque não existe capacidade para sustentar a diferença sem que o vínculo colapse.Muitas relações terminam porque a divergência entre o casal é algo que desorganiza e surge uma tensão que ativa a sensação de insegurança. Deste modo, deixa de existir uma espaço interno suficiente para que as duas realidades diferentes coexistam.
Quando isto acontece, a relação deixa de ser um espaço de crescimento e passa a ser um espaço de adaptação constante ou de conflito recorrente.
O verdadeiro sinal de maturidade relacional
O verdadeiro sinal de maturidade relacional não está na intensidade emocional, nem na ausência de conflito, mas sim na capacidade de sustentar a divergência sem perder estabilidade interna. É conseguir dizer: “vejo de forma diferente”, sem que isso signifique: “estamos em risco.”A maturidade relacional significa permanecer na relação sem abdicar de si, manter presença sem perder coerência e conseguir estar próximo sem deixar de ser inteiro.
Amar não é concordar. É sustentar o vínculo, mesmo quando existe tensão.

Permanecer inteiro dentro da relação
Talvez uma das expressões mais exigentes e mais maduras de estar numa relação seja esta: continuar a existir por inteiro, mesmo quando o outro pensa, sente ou vê o mundo de forma diferente.Permanecer inteiro numa relação, implica ficar sem desaparecer, sem atacar e sem precisar de transformar a diferença numa ameaça.
As relações maduras não pedem que duas pessoas sejam iguais, mas que duas consigam permanecer presentes, com identidade, dentro do mesmo vínculo.
Uma pergunta para si
Deixo-lhe uma questão simples, mas exigente: consegue manter a sua identidade quando o outro não vê o mundo da mesma forma?Siga o meu canal no YouTube e acompanhe os meus vídeos sobre estes temas.
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Fátima Gouveia - Amar com Lucidez
Relações Conscientes e Equilíbrio Emocional
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