MATURIDADE RELACIONAL | AMAR COM LUCIDEZ

Há um momento numa relação que quase ninguém nomeia. Não é um grande drama, não é uma traição, não é uma rutura súbita, é algo muito mais silencioso.
O início silencioso da perda de si:
Começa quando se começa a ceder em pequenas coisas que, antes, eram importantes. São pequenas concessões que, isoladamente, parecem irrelevantes, mas que, ao longo do tempo, vão desenhando um padrão.Os sinais que passam despercebidos:
Talvez já tenha ficado em silêncio, numa conversa, para evitar conflito e talvez já tenha dito “está tudo bem” quando, na verdade, o seu corpo dizia exatamente o contrário. Provavelmente, já cedeu num valor seu, apenas para evitar tensão. E, muitas vezes, diz a si mesmo que isso é maturidade, que isso é amor e que as relações exigem adaptação e, de facto, exigem.No entanto, nem toda a adaptação é sinal de maturidade.
A linha ténue entre adaptar-se e afastar-se de si:
Há uma diferença importante e muitas vezes pouco clara, entre adaptar-se e afastar-se de si.Quando a adaptação nasce com consciência, há flexibilidade, sem perda de identidade. Mas, quando nasce do medo, há um ajustamento constante que, pouco a pouco, vai reduzindo o espaço interno.
Se olhar para dentro de si com honestidade, talvez reconheça este “medo” ou receio. Refiro-me ao medo de perder, ao medo de desagradar, ao medo de ser “demasiado” e, quase sem dar por isso, o “Nós” começa a ocupar todo o espaço e o “Eu” começa a encolher.
Quando a relação deixa de ser um encontro entre duas pessoas inteiras:
Este é, muitas vezes, o ponto em que a relação deixa de ser um encontro entre duas pessoas inteiras e passa a ser um espaço de gestão emocional. No início parece apenas adaptação, depois torna-se silêncio e, mais tarde, surge o ressentimento.Este ressentimento surge quando aquilo que é essencial em si começa a ser colocado de lado repetidamente. Consequentemente, algo dentro da relação deixa de respirar com naturalidade e o corpo, muitas vezes, reconhece isto, antes da mente conseguir nomear.
Este ressentimento começa a provocar uma tensão subtil, uma sensação de contenção e uma vigilância constante para não desorganizar o vínculo e, com o tempo, aquilo que era espontâneo torna-se calculado.
O vínculo deixa de ser um lugar de crescimento e transforma-se num espaço de contenção e não necessariamente porque o outro seja inadequado ou porque exista falta de afeto. Muitas vezes acontece porque, em algum momento, deixamos de existir por inteiro dentro da relação.

Maturidade relacional:
A maturidade relacional não elimina o desconforto, não impede o conflito e não garante harmonia constante. Mas permite algo fundamental: permanecer presente sem desaparecer.O amor adulto é diferente. É conseguir dizer: “eu amo-te, mas isto não está alinhado comigo”, sem que isto se transforme numa ameaça, num ataque ou num recuo para se proteger na relação. É manter-se inteiro, mesmo quando isso introduz diferença.
É aqui que entra uma capacidade essencial: a diferenciação:
Esta diferenciação é a capacidade de permanecer em ligação sem perder a própria identidade. A partir daqui é possível sustentar a proximidade, evitando a fusão e de tolerar o desconforto sem ceder ao impulso de se adaptar para evitar tensão.As relações maduras não exigem ausência de conflito, mas exigem presença suficiente para poder ultrapassar esse conflito, sem perder quem se é.
Talvez uma das competências mais exigentes numa relação seja exatamente esta: continuar a existir dentro do vínculo, sem resistência, sem rigidez, mas com coerência. Coerência entre aquilo que se sente, aquilo que se pensa e aquilo que se escolhe.
Porque o vínculo só se torna num espaço de crescimento quando ambas as pessoas conseguem estar presentes, não apenas fisicamente, mas internamente.
Deixo-lhe uma questão simples: o que tem silenciado em si para manter a paz numa relação?
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Se esta reflexão fizer sentido para si, será interessante conhecer a sua perspetiva.— Fátima Gouveia
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