QUANDO DISCORDAR PARECE PERIGOSO | AMAR COM LUCIDEZ

A maturidade relacional manifesta-se na capacidade de permanecer, na capacidade de escutar, sem se fundir | Amar com Lucidez | Fátima Gouveia

Quando alguém pensa de forma diferente, o seu corpo relaxa ou prepara-se para se defender?

Há momentos mais sensíveis numa relação que parecem pequenos. Tão pequenos que, à primeira vista, quase passam despercebidos:
  • Uma conversa ao final do dia.
  • Uma opinião diferente.
  • Uma decisão simples.
  • Uma perspetiva que não coincide com a sua.
À primeira vista, nada disto parece grave, pois não existe traição, não existe ataque, não existe desrespeito. Existe, apenas, diferença.

Mas, mesmo assim, algo no corpo contrai-se. O peito aperta, a respiração encurta, a mandíbula fica mais tensa, a mente acelera.

E, de forma quase automática, porque, internamente, essa experiência não é vivida como algo natural, surge uma sensação difícil de explicar: “e se isto nos afastar?” E é aqui que muitas pessoas acreditam estar a reagir ao comportamento do outro. Mas, na maioria das vezes, não estão.

Na maioria das vezes, as pessoas estão a reagir ao significado interno que aquela diferença desperta, porque, para o sistema nervoso, esta diferença que interpretamos, nem sempre significa apenas diferença. Por vezes, significa risco, receio de afastamento, de rejeição e de perder a ligação. 

E esta sensação raramente começa na relação atual, começa muito antes, nomeadamente em experiências antigas, onde a proximidade e a segurança nem sempre caminharam juntas.

A maturidade relacional manifesta-se na capacidade de permanecer, na capacidade de escutar, sem se fundir | Amar com Lucidez | Fátima Gouveia

Quando as experiências são marcantes

Muitas destas experiências costumam ser muito marcantes, precisamente quando a diferença, numa dada altura, originou conflito, ou quando a manifestação de uma necessidade provocou tensão e a atitude de discordar trouxe distância emocional.

Quando o nosso sistema aprende isto cedo, guarda essa informação e, quando surge algo idêntico, assumimos isso como um risco grave que estamos a correr.

Nestes momentos, o corpo pode reagir, antes mesmo da mente conseguir interpretar o que está a acontecer e é neste momento que a dinâmica relacional começa a mudar.

Esta mudança pode ser observada da seguinte forma:
  • Em vez de presença, surge proteção.
  • Em vez de curiosidade, surge a defesa.
  • Em vez de escuta, surge a antecipação.
Começam a formar-se estratégias que, muitas vezes, passam despercebidas:
  • Muda-se de assunto.
  • Minimiza-se aquilo que se sente.
  • Concorda-se para evitar tensão.
  • Intensifica-se o debate até que a conversa se transforme em confronto.
Estas atitudes não surgem por falta de amor, mas por uma dificuldade em tolerar a diferença, sem sentir ameaça.

Relações Maduras

As relações maduras não são relações sem tensão, não são relações onde duas pessoas pensam sempre da mesma forma e também não são relações onde nunca existe desconforto.

Relações maduras são relações onde a tensão pode existir, sem desorganizar o vínculo, onde duas pessoas conseguem continuar presentes, mesmo quando não estão alinhadas. E isto não depende apenas do outro, depende, em grande parte, da capacidade de cada pessoa em sustentar a própria experiência interna, sem colapsar perante a diferença.

Depende, igualmente, da confiança e da certeza que temos sobre a nossa identidade, pois quando a identidade não está suficientemente consolidada, vemos a diferença como algo grave que deixa a nossa relação em risco.

Nesse momento, começamos a sentirmo-nos em perigo: perigo de afastamento, perigo de rejeição, perigo de perda. E é aqui que muitas relações começam, subtilmente, a fragilizar-se, não pela intensidade do conflito, mas pela incapacidade de o atravessar com estabilidade interna.

A maturidade relacional manifesta-se na capacidade de permanecer, na capacidade de escutar, sem se fundir | Amar com Lucidez | Fátima Gouveia

Maturidade Relacional

A maturidade relacional manifesta-se, precisamente, na capacidade de permanecer, na capacidade de escutar, sem se fundir. Mas também na facilidade de transmitir o que pensamos ou sentimos, sem atacar e manter a posição, sem romper o vínculo. 

A maturidade relacional implica, sobretudo, a capacidade de continuar inteiro, mesmo quando o outro pensa de forma diferente, porque amar não é concordar em tudo. Amar também é conseguir sustentar aquilo que nos separa, sem transformar essa diferença numa ameaça.

E talvez não seja a intensidade que determina a qualidade de uma relação. Talvez seja a forma como lidamos com aquilo que nos diferencia.

Hoje deixo-lhe uma questão: quando surge a diferença, aproxima-se para compreender ou afasta-se para se proteger?

Se esta reflexão fizer sentido para si, será interessante conhecer a sua perspetiva.

No Amar com Lucidez, acompanho mulheres em sessões individuais online, para que possam compreender os seus padrões relacionais, recuperar clareza interior e reencontrar uma forma mais consciente de estar no amor sem se abandonarem a si próprias.

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— Fátima Gouveia
Amar com Lucidez

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