HOJE NÃO ME APETECE | AMAR COM LUCIDEZ
Hoje não me apetece.
Uma frase curta que raramente significa o mesmo para quem a diz e para quem a ouve.Para quem ouve, a frase chega muitas vezes carregada de significados que nunca foram ditos: “já não me deseja”, “há outra pessoa”, “estou a ser rejeitada.” “nunca sou prioridade”.
Para quem a diz, pode significar coisas diferentes: “estou exausto”, ““o meu sistema nervoso está em modo de sobrevivência”, “não consigo desligar do trabalho”, “preciso primeiro de me sentir próximo de ti”.

A frase é a mesma. O cérebro que a interpreta é que muda.
E esta distinção, que pode parecer pequena, está no centro de uma das ideias mais persistentes sobre o desejo: a de que funciona como um interruptor. Ou está ligado, ou está desligado. Ou apetece, ou não apetece e, se não apetece, alguma coisa parece estar errada.Dois contributos muito importantes com dois caminhos para o mesmo lugar:
Durante décadas, a cultura popular ensinou um único guião sobre o desejo: primeiro surge o desejo e, a partir daí, nasce a proximidade. Vê-se, deseja-se, aproxima-se.Entre os contributos mais influentes está o Modelo de Controlo Duplo, desenvolvido por John Bancroft e Erick Janssen e posteriormente divulgado junto do grande público por Emily Nagoski, cuja obra ajudou milhões de pessoas a compreender melhor o funcionamento do desejo.
Desejo Espontâneo e Desejo Responsivo
O desejo espontâneo é aquele que surge sozinho, sem estímulo prévio. A maioria das pessoas associa este tipo de desejo à juventude, ao início de uma relação, às fases em que tudo parece mais fácil.O desejo responsivo surge quando existe proximidade, atenção, um determinado tipo de toque e a sensação de sermos vistos sem pressa. É uma resposta às condições que se foram criando entre duas pessoas.
Nenhum dos dois é mais "verdadeiro" ou mais "saudável" do que o outro. São dois mapas diferentes, igualmente válidos, para chegar ao mesmo lugar.
Com a idade, os anos de relação e o peso acumulado da vida quotidiana, pode mudar a forma como o desejo se manifesta. Para muitas pessoas, sobretudo depois dos 40, o desejo espontâneo torna-se menos frequente e o desejo responsivo passa a assumir um papel mais importante.
Isto não significa que exista uma disfunção ou que o desejo tenha desaparecido. Significa apenas que mudou a forma como ele aparece. E, para muitos casais, perceber isso já muda completamente a conversa.
No canal Amar com Lucidez, no YouTube, aprofundo esta reflexão no vídeo “Hoje não me apetece”: quando esta frase parece rejeição. Veja o vídeo e compreenda de que forma o desejo, a intimidade e a segurança emocional se podem transformar ao longo de uma relação.
O acelerador e o travão
O Modelo de Controlo Duplo da resposta sexual, desenvolvido por John Bancroft e Erick Janssen e posteriormente divulgado por Emily Nagoski, ajuda-nos a compreender o desejo através da metáfora de um acelerador e de um travão. O acelerador representa os estímulos que favorecem a excitação sexual; o travão representa tudo aquilo que a pode inibir, como o cansaço, o stress, a pressão, os conflitos ou a falta de segurança emocional.A maior parte das conversas populares sobre o desejo, e também grande parte da pressão que sentimos, implícita ou explícita, concentra-se quase exclusivamente no acelerador: em como criar mais estímulo, novidade ou intensidade.
Mas, para quem vive sobretudo o desejo responsivo, o mais importante nem sempre é aumentar o estímulo. Muitas vezes, é perceber o que está a impedir o desejo de surgir, ou seja, o que mantém o travão pressionado. E aquilo que o bloqueia não se resolve com mais intensidade, mas com mais segurança.
Esse travão pode ser o cansaço acumulado, uma discussão que ficou por resolver ou a sensação de não sermos verdadeiramente vistos e reconhecidos fora do quarto. Quando vivemos num estado constante de esforço, tensão ou disponibilidade para todos, o sistema nervoso pode ter dificuldade em abrandar e em criar espaço para o desejo. Nesses momentos, aumentar o estímulo não resolve o problema. Enquanto o travão continuar pressionado, o desejo terá dificuldade em surgir.

O que isto muda, na prática?
Perceber esta distinção muda a pergunta que fazemos a nós próprios e ao outro.Em vez de perguntarmos “porque é que não me apetece?”, uma pergunta muitas vezes carregada de julgamento, podemos perguntar: “O que é que precisa de mudar para que o desejo volte a aparecer?”
Por vezes, a resposta é simples, embora nem sempre seja fácil criar espaço para ela: proximidade sem uma intenção definida, um toque que não pede nada em troca, a sensação de que continuamos a escolher-nos fora da cama antes de nos procurarmos dentro dela, ou apenas vinte minutos sem ecrãs nem listas de tarefas, com verdadeira presença.
Não se trata de “reacender a chama” através de mais esforço ou mais performance. Trata-se de criar, deliberadamente, as condições em que o desejo responsivo tem espaço para surgir, porque ele já não aparece sozinho como talvez acontecesse antes. Precisa de proximidade, atenção e segurança para poder surgir.
E há uma implicação relacional importante nisto: se o desejo de um dos dois funciona sobretudo de forma responsiva, a criação dessas condições deixa de ser uma tarefa individual. Passa a ser uma tarefa do casal.

O que fica por dizer
Quando o desejo muda de forma, a primeira pergunta que surge é quase sempre a mesma: “O que é que eu perdi?”Talvez a pergunta mais honesta seja: “O que é que precisa de mudar para que o desejo volte a aparecer?”
Talvez o desafio não seja fazer com que o desejo se comporte como há vinte anos. Talvez seja aprender a reconhecer a forma como ele se manifesta hoje. Trata-se, afinal, de compreender a língua que ele fala agora e de deixar de interpretar o silêncio como recusa, quando muitas vezes é apenas um sistema nervoso a pedir, antes de mais, segurança.
Por vezes, o desejo continua lá. Apenas deixou de encontrar as condições de que precisa para surgir.
Se esta reflexão fizer sentido para si, gostaria muito de conhecer a sua perspetiva.
— Fátima Gouveia
Amar com Lucidez
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Leituras que inspiraram esta reflexão:
Come As You Are — Emily Nagoski
Trabalhos de John Bancroft e Erick Janssen sobre o Modelo de Controlo Duplo da resposta sexual



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