INTENSIDADE OU COMPATIBILIDADE NO AMOR - O QUE DIZ A NEUROCIÊNCIA?

Intensidade ou compatibilidade no amor: o que diz a neurociência - Amar com Lucidez de Fátima Gouveia

Intensidade vs. compatibilidade: o que a neurociência revela sobre o amor

Há uma experiência que quase todos nós já tivemos, pelo menos uma vez na vida, ao conhecer alguém.

A maioria de nós já sentiu, num primeiro encontro ou no início de uma relação, uma sensação de reconhecimento, como se já conhecêssemos essa pessoa. É como se existisse um encaixe imediato, quase inevitável, onde as conversas fluem, a atração é intensa e tudo parece acontecer com uma naturalidade que raramente sentimos.

E, quase sempre, interpretamos isso como um sinal: “Quando isto acontece, tem de ser a pessoa certa.”

Em 2000, Thomas Lewis, Richard Lannon e Fari Amini cunharam um termo para descrever esta sensação: ressonância límbica. É uma expressão evocativa, que ajudou milhares de leitores a dar nome a algo que sentiam, mas não sabiam explicar. Vale a pena, no entanto, ser rigorosa sobre o que este termo é e não é: a ideia de um sistema límbico como estrutura anatómica unificada e isolada tem sido cada vez mais questionada pela neurociência. Hoje, sabemos que não existe um único sistema límbico com fronteiras bem definidas, mas sim redes neuronais distribuídas com funções distintas de emoção, memória e motivação que se sobrepõem e interligam de formas que a expressão sistema límbico simplifica em excesso.

Ou seja: “ressonância límbica” é uma metáfora útil para comunicar uma ideia, não uma descrição literal de um mecanismo cerebral isolado.

O que a evidência atual sustenta com mais solidez é isto: dois sistemas nervosos, em proximidade, sincronizam-se de forma automática e inconsciente. É uma resposta neurológica, não uma decisão.

É por isso que o nosso sistema nervoso acelera, de forma imediata, na presença de certas pessoas. O nosso sistema nervoso reconheceu algo no sistema nervoso do outro: um padrão, uma familiaridade, uma frequência que ressoa com a nossa história emocional.

A isto chamamos química. Mas parte do que estamos a sentir é a ativação emocional e fisiológica do nosso sistema nervoso. E essa ativação, por mais intensa que seja, não é o mesmo que compatibilidade.

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A distinção que ninguém ensinou

Aqui está a diferença que muda tudo e que raramente é explicada com clareza suficiente.

A intensidade é a sincronização nervosa sem regulação. Ou seja, existe uma forte ativação emocional e corporal, com atração, entusiasmo e desejo de proximidade, mas também com inquietação e dificuldade em encontrar segurança. Dois sistemas que se ativam mutuamente de forma intensa, mas que não se co-regulam. É intensidade sem alicerce. É reconhecimento sem segurança. É a sensação de encaixe imediato que coexiste, estranhamente, com uma tensão de fundo que nunca desaparece completamente.

A compatibilidade é sincronização nervosa com co-regulação. Dois sistemas que não apenas se ativam, mas que se acalmam mutuamente, que se organizam na presença um do outro e que criam, juntos, um estado de maior estabilidade do que aquele que cada um tem sozinho.

Esta distinção explica algo que muitas pessoas viveram, mas nunca conseguiram nomear: há relações intensíssimas que nunca se tornam seguras e outras que parecem “menos apaixonantes” do que esperávamos, mas nas quais o corpo, de forma inexplicável, consegue finalmente respirar.

Trata-se de uma qualidade diferente de ressonância, não de falta de amor.

Porque é que confundimos os dois?

A resposta está, em parte, na nossa história emocional.

O sistema nervoso não sincroniza de forma aleatória. Sincroniza com o que reconhece. E o que reconhece foi moldado muito antes da vida adulta. Foi moldado pelas primeiras relações de vínculo, pelas experiências de proximidade e separação, pela forma como aprendemos que o amor funciona.

Se crescemos num ambiente onde o amor era imprevisível, a ativação intensa pode sentir-se como profundidade, como se essa intensidade emocional fosse, ela própria, prova de que algo é real e importante. E, curiosamente, essa mesma pessoa pode interpretar a estabilidade, quando finalmente surge, como ausência de sentimento, como se “calma” significasse desinteresse.

Se aprendemos que a atenção dos outros tinha de ser conquistada, a tensão emocional constante pode ser sentida como investimento. Investimos na estabilidade, na compatibilidade e na sensação de segurança dentro da relação, mas fazemos isso através dessa mesma tensão, porque foi isso que aprendemos a reconhecer como cuidado.

A geração que cresceu a ouvir “agarra-te”, “engole”, “segue em frente”, que nunca aprendeu a ler os sinais do próprio corpo como informação válida, tem uma dificuldade acrescida aqui. Porque a co-regulação, quando finalmente surge, pode não ser reconhecida. Pode parecer demasiado tranquila, demasiado simples, demasiado diferente do que o sistema nervoso aprendeu a associar ao amor.

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Ser testemunhado numa relação

Há uma cena do filme Shall We Dance? que ilustra isto com precisão. Beverly Clark, interpretada por Susan Sarandon, responde à pergunta sobre por que razão as pessoas se casam:

“Porque precisamos de uma testemunha para a nossa vida. Há mil milhões de pessoas no planeta… afinal, o que significa verdadeiramente a vida de uma só pessoa? Mas, num casamento, prometemos importar-nos com tudo: com as coisas boas, as coisas más, as terríveis e as banais, a toda a hora, todos os dias. Estamos a dizer: ‘A tua vida não passará despercebida, porque eu repararei nela. A tua vida não ficará sem testemunha, porque eu serei a tua testemunha.’”

Para além de bonita, esta frase é neurologicamente precisa.

Daniel Siegel descreve algo que a neurociência das relações tem vindo a demonstrar: a mente não se organiza em isolamento. Desenvolvemo-nos, regulamo-nos e tornamo-nos mais inteiros, através das relações com os outros. O “nós” não é uma construção sentimental; é uma realidade neurológica.

É na relação com o outro que partes de nós existem ou não existem. O outro não nos completa. Isso nunca esteve em causa. O que o outro nos dá é eco. E esse eco, quando é consistente, seguro e genuíno, tem um efeito no sistema nervoso que nenhuma quantidade de trabalho individual consegue replicar completamente.

O que Susan Sarandon descreve — ser testemunhado — é exatamente isso. Não a intensidade do início. Não o deslumbramento do reconhecimento imediato. Mas a presença continuada, consistente, que diz: “Eu vejo-te. A tua vida importa. Estou aqui.”

Isso é co-regulação. E aqui vale a pena ser precisa sobre o que a ciência efetivamente mostra. A co-regulação é hoje estudada sobretudo através do sistema nervoso autónomo, não do sistema límbico. A Teoria Polivagal, desenvolvida por Stephen Porges, descreve como o sistema nervoso autónomo deteta continuamente sinais de segurança ou de ameaça — um processo a que Porges chama neuroceção — e como, na presença de outra pessoa, esses sinais (tom de voz, expressão facial, postura) podem ajudar o sistema nervoso a sair de um estado de alerta e entrar num estado de calma e ligação social. É esse mecanismo, autonómico, não límbico, que sustenta o que sentimos como compatibilidade.

Isso é compatibilidade, a qual envolve também valores, objetivos de vida, comunicação, projeto comum, sexualidade, e muito mais.

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O que o corpo sabe antes da mente perceber

Há uma pergunta simples que raramente se coloca quando se avalia uma relação.

Não, “sentimo-nos apaixonados?” Não, “temos futuro?” Não, “somos compatíveis nos valores?”

A pergunta é esta: na presença desta pessoa, o nosso sistema nervoso abranda ou fica em alerta?

Não no início, quando a ativação emocional e fisiológica do sistema nervoso é inevitável e pode confundir-se facilmente com intensidade, mas ao longo do tempo: no dia a dia, nos momentos sem drama, nas conversas banais e nos silêncios.

O corpo responde a esta pergunta antes de a mente conseguir formular uma resposta. E essa resposta, quando aprendemos a escutá-la sem a filtrar imediatamente pela narrativa que construímos sobre a relação, é uma das informações mais honestas que existem.

Porque o sistema nervoso não tem agenda: não quer ter razão, não precisa proteger ninguém. Apenas regista o que acontece quando dois sistemas nervosos se encontram, dia após dia, ao longo do tempo.

Aprender a reconhecer essa resposta é uma competência. Não nascemos com ela. Desenvolve-se ao longo da vida.

O que fica por dizer

Reconhecer a diferença entre ativação e co-regulação é apenas o início. Não é a chegada.

Porque quando começamos a perceber que confundimos intensidade com compatibilidade, que aquilo que sentíamos era reconhecimento sem segurança, ressonância sem regulação, surge quase sempre a pergunta seguinte.

E agora?

A resposta começa, não num conceito novo, mas numa prática simples: aprender a notar, no dia a dia, o que o corpo já sabe.

Não é fácil. Porque compreender uma ideia e conseguir vivê-la são duas coisas diferentes. Podemos entender intelectualmente porque escolhemos determinadas relações e, ainda assim, continuar a repetir os mesmos padrões. Podemos reconhecer o que nos faz sofrer e, mesmo assim, sentirmo-nos atraídos pelas mesmas dinâmicas.

O sistema nervoso não muda quando aprende um conceito. Muda quando vive experiências diferentes, repetidas ao longo do tempo.

É nesse espaço, entre compreender e transformar, que começa o verdadeiro trabalho.

Porque, muitas vezes, não falta amor. Falta estrutura emocional para o sustentar.

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas: “Na presença de quem o nosso sistema nervoso abranda?”

Talvez seja esta: “O que é que o nosso sistema nervoso aprendeu a chamar amor?”

Porque, muitas vezes, é dessa resposta que depende a qualidade das relações que construímos.

Se esta reflexão fez sentido para si, gostaria muito de conhecer a sua perspetiva nos comentários.

— Fátima Gouveia
Amar com Lucidez

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Referências principais

Lewis, T., Amini, F. & Lannon, R. (2000). A General Theory of Love.

Siegel, D. J. (1999/2012). The Developing Mind: How Relationships and the Brain Interact to Shape Who We Are.

Siegel, D. J. (2010). Mindsight.

Porges, S. W. (2011). The Polyvagal Theory: Neurophysiological Foundations of Emotions, Attachment, Communication, and Self-regulation.



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